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As Aventuras de Robin Hood - Livro 1

Capítulos 1

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As Aventuras de Robin Hood Capítulo 15

Os soldados continuavam a se aproximar, mas com toda prudência. A cada passo paravam, protegidos pela densa folhagem, respeitando as ordens do barão, que não queria que utilizassem o arco, temendo que

ferissem sua filha.

Tal ordem não agradava aos soldados, pois sabiam que o jovem arqueiro não deixaria que se aproximassem o bastante para utilizar a lança, e mataria alguns deles.

 

— Se tiverem a presença de espírito de me cercar, estou perdido — pensou Robin.

 

Uma abertura na vegetação permitiu-lhe, de repente, avistar Fitz-Alwine, e o desejo de vingança o invadiu.

 

— Robin — murmurou nesse momento a jovem —, já estou me sentindo melhor. O que aconteceu com meu pai? Não fez mal nenhum a ele, não é?

— Nenhum, milady — respondeu ele com um leve tremor —, mas… Fez vibrar com o dedo a corda do arco.

— Mas o quê? — quis saber Christabel, assustada com o gesto sinistro.

— Ele, sim, me causou um grande mal! Ah, milady! Se soubesse…

— Onde está meu pai?

— A poucos passos daqui — respondeu friamente Robin. — E Sua Senhoria não ignora que estamos a poucos passos também. Seus soldados, entretanto, não se arriscam ao ataque, com medo das minhas flechas. Ouça com atenção, milady — ele continuou, depois de um minuto de reflexão —, inevitavelmente cairemos nas mãos deles, se continuarmos aqui. Nossa única escapatória é fugir, fugir sem sermos vistos. Para isso, vamos precisar de coragem, muito sangue-frio e, sobretudo, de toda confiança na proteção divina. Ouça bem; se continuar tremendo assim, não vai entender direito minhas palavras. Terá que agir agora. Cubra-se bem com a sua capa, a cor escura vai ajudar a passar despercebida, e siga sob a folhagem, o mais perto do chão, rastejando se for preciso.

— Vão me faltar forças, ainda mais do que coragem — disse chorando a pobre Christabel. — Serei morta antes de dar vinte passos. Salve-se você, sem se preocupar comigo. Fez tudo que pôde para me levar ao meu bem- amado. Deus não permitiu. Que se faça então a sua santa vontade e a sua bênção o acompanhe! Adeus, meu amigo… vá! Diga ao querido Allan que meu pai não poderá exercer por muito tempo seu poder sobre mim. Meu corpo inteiro, e não só o coração, está ferido. Resta-me pouca vida. Adeus.

— Não, milady — insistiu o corajoso rapaz —, não vou fugir. Fiz uma promessa ao sr. Allan e para cumpri-la vou continuar, a menos que a morte me impeça… Anime-se, Allan talvez já esteja no vale e, vendo a minha flecha, sairá a nossa procura… Deus ainda não nos abandonou.

— Allan, Allan, querido Allan, por que não chega? — afligiu-se Christabel.

 

Repentinamente, como respondendo ao chamado do desespero, ouviu- se atravessar os ares o uivo prolongado de um lobo.

De joelhos, Christabel estendeu os braços ao céu, de onde vem todo socorro, mas Robin, com as faces intensamente afogueadas, pôs em concha as duas mãos em volta da boca e repetiu o mesmo uivo.

 

— Estão vindo nos ajudar — disse ele satisfeito. — Estão vindo, milady. Esse uivo é o sinal combinado entre a gente da floresta. Como respondi, nossos amigos vão surgir. Deus não nos abandona, como pode ver. Vou pedir que se apressem.

 

Com uma só mão em funil por cima dos lábios, ele imitou o grito de uma garça perseguida por um abutre.

 

— Isso significa, milady, que estamos em perigo.

 

Ouviu-se um grito semelhante, de garça assustada, não muito longe.

 

— É Will, meu amigo Will! — exclamou Robin. — Coragem, milady! Esconda-se na folhagem, estará protegida do perigo de alguma flecha perdida.

 

O coração da jovem batia com toda força, mas estimulada pela esperança de estar em breve com Allan, teve forças para obedecer e desapareceu, ágil como uma cobra no mato.

Para desviar a atenção, Robin deu um grito, saiu do esconderijo e com um salto foi se colocar atrás de outra árvore.

Uma flecha logo se cravou na casca dessa árvore, ao que o nosso herói rapidamente respondeu com uma gargalhada debochada e trocando flecha por flecha, derrubou no chão o infeliz soldado.

 

— Avancem, imbecis! Covardes! Avancem! — vociferava Fitz-Alwine. — Ou ele os matará todos, um de cada vez.

 

O barão incentivava seu pessoal ao combate, sempre protegido atrás de uma árvore, quando uma chuva de flechas anunciou a entrada em combate de João Pequeno, com os sete irmãos Gamwell, Allan Clare e frei Tuck.

Diante da atitude do valoroso grupo, os homens de Nottingham largaram as armas no chão e pediram trégua. Só o barão não capitulou e partiu pelo matagal aos urros.

Vendo seus amigos, Robin foi atrás de Christabel, mas ela, em vez de ter continuado onde estava, fosse por medo, por ter esquecido os conselhos ou por simples fatalidade, havia ido embora.

Facilmente ele encontrou a sua pista, mas foi em vão que a chamou: apenas o eco lhe respondeu. O jovem arqueiro já se acusava de imprevidência quando um brusco grito de dor feriu seus ouvidos. Ele correu nessa direção e pôde ver um cavaleiro do barão tomar Christabel pela cintura e levá-la em seu cavalo.

Outra vez uma das suas flechas vingadoras partiu. Ferido em pleno peitoral, o cavalo corcoveou, fazendo o raptor e Christabel rolarem pelo chão.

Deixando sua presa de lado, o soldado sacou a espada, procurando em quem vingar a morte da sua montaria. Mas não teve tempo de descobrir o adversário, pois caiu também sem movimento ao lado da primeira vítima e Robin se apressou a tirar Christabel de junto do cadáver, temendo que o sangue que saía do ferimento na cabeça sujasse a moça.

Ao abrir os olhos e ver a nobre fisionomia do jovem arqueiro ali debruçado, ela corou, estendeu a mão e apenas disse:

 

— Obrigada!

 

Mas essa pequena palavra foi pronunciada com tal sentimento de gratidão e tão profunda emoção, que Robin, também ruborizando, beijou a mão que se oferecia.

 

— Por que se afastou tanto e tão rapidamente, milady? E como foi surpreendida por esse mercenário? Os demais depuseram as armas e se puseram à mercê de sir Allan.

— Allan!… Aquele homem me reconheceu e pegou-me, gritando: “Cem escudos de ouro! Hurra! Cem escudos de ouro!” Você disse que Allan…

— Disse que o sr. Allan a espera.

 

A  jovem  pareceu  ter  asas  nos  pés,  que  no  entanto  estavam  bem cansados, mas parou espantada, diante do cortejo ao redor do cavaleiro.

Robin tomou a mão de Christabel e ajudou-a a dar mais alguns passos até o grupo, mas assim que Allan a viu, sem levar em consideração os homens presentes, mas também sem poder articular palavra alguma, foi até ela, enlaçou-a forte pela cintura e cobriu a sua testa com os mais carinhosos beijos. Palpitante e aturdida de alegria, prestes a desfalecer de felicidade, entre os braços de Allan, Christabel era apenas uma forma humana, com toda sua força vital concentrada no olhar, nos lábios frementes, nas loucas pulsações do coração.

Lágrimas e soluços, soluços e lágrimas de felicidade enfim explodiram. Os dois jovens tomaram consciência do próprio ser e puderam dizer o que sentiam com demorados olhares em que o fluido do amor substituía o fluido luminoso.

A emoção dos que assistiram a essa cena, a essa fusão de duas almas, era grande. Contagiada, Maude se aproximou de Robin, pegou suas duas mãos e tentou sorrir, mas o sorriso fazia brotarem lágrimas que corriam uma a uma pelas faces aveludadas, sem se desfazerem, como rolam as gotas d’água nas folhas.

 

— E minha mãe e Gilbert? — perguntou o rapaz apertando as mãos de Maude nas suas.

 

Nervosa, ela contou não ter ido ao cottage, tendo Halbert se encarregado sozinho da tarefa.

 

— João Pequeno — chamou Robin —, você esteve com meu pai de manhã. Não aconteceu nada de ruim a ele?

— Nada, amigo; mas coisas estranhas, que lhe contaremos. Deixei seu pai tranquilo e bem pela manhã, quer dizer, umas duas horas depois da meia-noite.

— Por que esta preocupação, Robin? — perguntou Will se aproximando do jovem arqueiro para também estar perto de Maude.

— Tenho sérios motivos para isso: um sargento do barão disse ter incendiado pela manhã a casa do meu pai e jogado nas chamas minha mãe.

— E o que você respondeu? — assustou-se João Pequeno.

— Não respondi, matei-o… Será que disse a verdade, ou mentiu? Quero ir até lá, preciso ver meu pai e minha mãe — acrescentou Robin com a voz embargada por lágrimas. — Irmã Maude, vamos…

— Miss Maude é sua irmã? — estranhou Will. — Oito dias atrás eu desconhecia essa sua felicidade.

— Há oito dias eu não tinha irmã, caro Will… mas hoje tenho essa alegria —   respondeu Robin tentando sorrir.

— Das irmãs que tenho, só o que posso desejar — acrescentou galantemente Will — é que em tudo se pareçam com a senhorita.

 

Robin olhou com curiosidade para Maude. Ela Chorava.

 

— Onde está o seu irmão Halbert? — ele perguntou.

— Já disse, Hal foi sozinho para o cottage de Gilbert.

— Por minha alma, acho que o estou vendo! — exclamou de repente frei Tuck. — Olhem…

 

Hal, de fato, se aproximava a toda velocidade, montado no mais belo animal das cavalariças do barão.

 

— Vejam, amigos — gritou cheio de orgulho o rapaz —, mesmo sem vocês, lutei bravamente. Ganhei a melhor montaria do condado. Ah, acham mesmo que foi preciso lutar? Nada disso! Encontrei-o sem cavaleiro, pastando na relva da floresta.

 

Robin sorriu, reconhecendo o cavalo do barão, que lhe tinha servido de alvo.

Reuniram-se todos em conselho.

Naquela época em que os grandes senhores feudais agiam soberanamente sobre seus vassalos, guerreavam com vizinhos, se autorizando direitos de saquear, assaltar e matar, pelas prerrogativas de alta e baixa justiça, com frequência lutas terríveis se travavam entre castelos, entre aldeias e, terminada a batalha, vencedores e vencidos se retiravam, cada qual para o seu lado, dispostos a recomeçar à primeira ocasião propícia.

O barão de Nottingham, derrotado naquela noite rica em acontecimentos, podia então perfeitamente partir para a desforra, inclusive no mesmo dia. Seus homens que tinham sido poupados voltaram ao castelo e ele possuía ainda bom número de lanças que não tinham saído em campo, enquanto o pessoal do hall de Gamwell, único apoio de Allan Clare e Robin, não conseguiria fazer frente por muito tempo a tão poderoso senhor. Era preciso então, para manter alguma vantagem, suprir a falta de braços pela prudência, astúcia e iniciativa, assim como pela coragem.

Era esta a razão do conselho, enquanto o barão, acompanhado por dois ou três servidores, conseguia, em deplorável estado, chegar ao castelo. A presença de Christabel havia impedido que nossos amigos o tivessem incomodado nessa retirada.

Decidiu o conselho que Allan e Christabel se refugiariam de imediato no hall, pelo caminho mais curto. Will Escarlate, seus seis irmãos e o primo João Pequeno os acompanhariam.

Robin, Maude, Tuck e Halbert se dirigiriam ao cottage de Gilbert Head. À noite trocariam mensagens, com todos se mantendo disponíveis, caso fosse necessário se reunir por um motivo ou outro.

William não estava muito de acordo e usou todos os seus argumentos para convencer o quão melhor seria que Maude acompanhasse a sua ama ao hall.

Mas a moça levava muito a sério sua nova situação de irmã de Robin e não quis. Will, porém, tanto insistiu que Christabel passou a apoiá-lo, mesmo sem entender suas reais intenções, e fez com que Maude a seguisse.

 

— Robin Hood — disse Allan Clare, tomando as mãos do jovem arqueiro —, foi arriscando por duas vezes a própria vida que você salvou a minha e a de lady Christabel. Tornou-se então mais do que um amigo, é meu irmão. Entre irmãos, como sabe, tudo é comum: são seus então não só meu coração, mas meu sangue e minha fortuna. É seu tudo que tenho. Quando eu deixar de lhe ser grato, será por ter deixado de viver. Até breve!

— Até breve, cavaleiro.

 

Os dois se abraçaram e Robin respeitosamente levou aos lábios os dedos brancos da bela noiva de Allan.

 

— Até breve, todos! — exclamou Robin se despedindo dos Gamwell.

— Até breve! — eles responderam em coro, agitando no ar os gorros.

— Até breve! — murmurou uma voz suave. — Até breve!

— Até logo, Maude querida. Até logo! Não se esqueça do seu irmão!

 

Montados no cavalo do barão, Allan e Christabel foram os primeiros a partir.

 

— A eles a santa Virgem protege! — disse Maude com tristeza.

— É verdade que o cavalo os aguenta bem — respondeu Halbert.

— Tolo! — murmurou a jovem baixinho, deixando escapar um profundo suspiro.

 

O nobre animal que levava lady Christabel e Allan Clare ao hall de Gamwell marchava ligeiro, mas com infinita maciez e suavidade nos movimentos, como se entendesse a natureza do precioso fardo. A rédea graciosamente dançava em seu pescoço curvado, mas os olhos não se despregavam do solo, temendo interferir, com um passo em falso, na conversa dos enamorados.

De vez em quando, Allan se virava para trás e suas palavras encontravam as de Christabel que, para se manter em sela, abraçava a cintura do companheiro.

De que estariam falando, depois de noite tão tumultuada? De tudo o que o delírio da felicidade inspira: às vezes muito, outras vezes nada, pois há quem vivencie a felicidade com eloquência, enquanto outros a saboreiam calados.

Christabel se censurava pela maneira como se comportara com o pai, imaginando-se criticada, com o mundo a condená-la por ter fugido com um homem: perguntava-se se o próprio Allan, mais tarde, não a desprezaria por isso. Mas essas censuras, escrúpulos e temores só se expressavam pelo prazer de vê-los reduzidos a pó pela persuasiva negação do cavaleiro.

 

— O que seria de nós se meu pai tivesse o poder de nos separar, Allan querido?

— Em pouco tempo ele não terá mais como fazer isso, adorada Christabel. Você logo será minha mulher, não somente perante Deus, como já é agora, mas perante os homens. Também terei soldados — acrescentou com orgulho o jovem cavaleiro —, que nada ficarão a dever aos de Nottingham. Não se preocupe, querida, deixemos que a proteção divina cuide da nossa felicidade.

— Queira Deus que meu pai nos perdoe!

— Se lhe causar temores a proximidade de Nottingham, meu amor, podemos viver nas ilhas do Sul, onde o céu é sempre azul, com raios quentes de sol, flores e frutos. Exprima um desejo e encontrarei para você um paraíso terrestre.

— Tem toda razão, querido, seremos mais felizes lá do que nessa fria Inglaterra.

— Deixaria então a Inglaterra, sem se lamentar?

— Sem me lamentar… Para viver a seu lado eu deixaria o céu — acrescentou Christabel com ternura.

— Que seja, então! Assim que nos casarmos partiremos para o continente. Marian virá conosco.

— Psss! Allan, ouça… Estamos sendo seguidos — disse a jovem.

 

O rapaz fez o cavalo parar. Christabel estava certa; podia-se ouvir uma cavalgada que se aproximava e a cada minuto, a cada segundo, o barulho, de início longínquo, crescia, ameaçador.

 

— Que fatalidade! Por que nos distanciamos dos amigos de Gamwell? — pensou Allan, esporeando a montaria para dar meia-volta e se enfiar no mato, pois estavam numa estrada.

 

Nesse momento uma coruja, despertada pelo barulho, saiu de um tronco de árvore ali por perto, soltou um piado lúgubre e passou raspando pelas narinas do cavalo que obedecia ao comando da espora. Assustando-se, em vez de fugir para a direção indicada, o animal se lançou em velocidade pela estrada.

 

— Coragem, Christabel! — gritou o rapaz, que inutilmente lutava contra o pânico da montaria. — Coragem! Segure-se firme! Um beijo, Christabel, e que Deus nos ajude!

 

Um bando de cavaleiros com as cores do barão se apresentava em linha, ocupando toda a estrada. Seria impossível a fuga virando as costas para eles e a única possibilidade, miraculosa, era forçando passagem.

Allan percebeu o perigo e pensou apenas em enfrentá-lo. Cravando então as rosetas das esporas nos flancos do cavalo, partiu de cabeça baixa contra os homens armados e passou… passou como um raio atravessando uma nuvem.

 

— Meia-volta! Meia-volta! — comandou o chefe da tropa, irritado com tamanha audácia. — Acertem o animal, pobre de quem ferir milady!

 

Uma chuva de flechas caiu ao redor de Allan, mas o nobre animal não diminuía a corrida nem Allan desanimava.

 

— Diabos! Estão escapando! — berrou o comandante. — Nas pernas, atirem nos jarretes do animal!

 

Pouco depois os soldados já cercavam os dois namorados, caídos no chão após a queda mortal do pobre cavalo.

 

— Renda-se, cavaleiro — disse o comandante com irônica cortesia.

— Nunca! — respondeu Allan que, já de pé, desembainhara a espada. — Nunca! Vocês mataram lady Fitz-Alwine — acrescentou, apontando para Christabel, inanimada a seus pés. — Morrerei vingando-a.

 

A luta desigual não durou muito: Allan caiu coberto de ferimentos e os soldados retomaram o caminho de Nottingham, levando Christabel como se fosse uma criança dormindo.

SENTINDO-SE CULPADO, William quis ir atrás do amigo Robin Hood, achando que poderia ser útil e pensando voltar em seguida rapidamente ao hall para se entregar à admiração dos belos olhos de miss Hubert Lindsay.

Mas João Pequeno, apreciador do bom uso das formalidades, chamou-o de volta.

 

— É bom que seja você a apresentar no hall os novos convidados. Deixe que acompanho Robin.

 

O rapaz aceitou; jamais passaria por cima dos deveres que a amizade impõe.

Foi durante essa curta discussão que Allan e Christabel se distanciaram dos Gamwell, e o próprio Robin, achando encurtar o caminho, andou ainda por algum tempo na companhia deles, até certa trilha que ele conhecia bem.

Hal e Maude tinham igualmente se distanciado um pouco, mas frei Tuck havia parado para esperar o grosso do grupo.

Enquanto falavam, os jovens acabaram chegando à pequena encruzilhada em que Robin se separaria e não distante daquela em que frei Tuck aguardava, preguiçosamente estendido no gramado. O pobre frade ainda sonhava com a cruel Maude!

Prolongavam-se mil despedidas, até que um dos rapazes Gamwell percebeu a pouca distância o corpo ensanguentado de um homem, no chão.

 

— Um soldado do barão! — disseram uns.

— Uma vítima de Robin! — opinaram outros.

— Céus! Algo horrível aconteceu! — exclamou Robin, reconhecendo de imediato Allan Clare. — Reparem, amigos… a relva foi pisoteada por cavalos. Houve luta aqui… Deus, meu Deus! Estará morto? E lady Christabel, o que pode ter acontecido?

 

Todos se juntaram ao redor do corpo, que parecia sem vida.

 

— Não está morto, tenho certeza! — afirmou Tuck.

— Graças a Deus! — repetiu o grupo.

— O sangue escorre pela ferida do alto da cabeça, o coração está batendo… Allan, sr. cavaleiro, seus amigos estão aqui, abra os olhos.

— Procurem em volta — disse Robin. — Quem sabe encontramos lady Christabel.

 

O nome querido trouxe Allan de volta à vida.

 

— Christabel! — murmurou ele.

— Está em segurança, senhor — gritou o frade, que colhia em volta algumas plantas úteis naquelas circunstâncias.

— Você cuida dele? — perguntou Robin ao monge.

— Cuido. Feito um curativo, podemos transportá-lo ao hall numa maca feita de galhos de árvore.

— Então tenho que ir, sr. Allan — disse Robin, debruçando-se penalizado junto ao ferido. — Logo voltaremos a nos ver.

 

Allan pôde apenas dar um pálido sorriso.

Enquanto os robustos rapazes Gamwell lentamente transportavam o pobre Allan ao hall, Robin, devorado de preocupação, rapidamente se dirigia à casa do pai adotivo. O que acontecera a Allan e seus temores pessoais deixavam pesado o seu coração e ele praguejava contra as distâncias e o espaço, querendo poder voar ainda mais rápido do que as andorinhas. Gostaria de atravessar a densidão da floresta e beijar Marguerite e Gilbert para confirmar que estavam vivos.

 

— Tem pernas de gamo — observou João Pequeno.

— Todos temos, quando é preciso — ele respondeu.

 

Chegando ao vale dos álamos que levava à casa de Gilbert, os dois jovens reconheceram horrorizados o quão verdadeiras tinham sido as palavras de Lambic. Uma espessa nuvem de fumaça pairava ainda acima das árvores e os acres odores do incêndio impregnavam a atmosfera.

Robin deu um grito de desespero e, seguido por João Pequeno, não menos aflito, partiu correndo pela alameda.

A poucos passos dos escuros escombros, onde, pelas janelas iluminadas da alegre moradia ainda no dia anterior sorria um lar, Robin se ajoelhou e com as mãos apertou as de Marguerite, geladas, estendida à sua frente.

 

— Pai! Pai! — ele gritou.

 

Uma surda exclamação saiu dos lábios de Gilbert, que se aproximava e caiu em pranto nos braços do filho. Sua natural predisposição, no entanto, calou por um momento qualquer lamentação, lágrimas e soluços.

 

— Robin — disse ele, com voz firme —, você é o legítimo herdeiro do conde de Huntingdon. Não duvide, é verdade… Será, um dia, poderoso. E enquanto houver um sopro de vida no meu velho corpo, ele lhe pertence… Poderá contar com a fortuna, como sempre contou com a minha dedicação. Mas, agora, veja: morta, assassinada por um miserável, aquela que tão terna e sinceramente o amava, como amaria a um filho das próprias entranhas.

— Eu sei, sei que me amava! — murmurou Robin, ajoelhado junto ao corpo de Marguerite.

— Veja o que fizeram da sua mãe, um cadáver! O que fizeram da sua casa, uma ruína! O conde de Huntingdon vingará a sua mãe?

— Eu a vingarei!

 

Pondo-se de pé, Robin acrescentou:

 

— O conde de Huntingdon esmagará o barão de Nottingham e a morada senhorial do nobre lorde será, como a casa do humilde guarda-florestal, devorada pelas chamas.

— Também juro — disse João Pequeno — que não darei descanso nem trégua a Fitz-Alwine, com todos os seus seguidores e vassalos.

 

No dia seguinte, o corpo de Marguerite, que Lincoln e João Pequeno transportaram para o hall, foi enterrado com veneração no cemitério da aldeia de Gamwell.

Os memoráveis acontecimentos daquela estranha noite tinham reunido como se fosse uma só família, para se vingar do barão Fitz-Alwine, as diversas personagens da nossa história.

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