Skip to main content

As Aventuras de Robin Hood - Livro 1

Capítulos 1

© Todos os direitos reservados.

As Aventuras de Robin Hood Capítulo 13

Com a testa, as pálpebras, na verdade o rosto inteiro bem chamuscado, pois tinha acabado de servir para apagar uma tocha, o sargento Lambic teve ainda o azar de, indo atrás de Robin, tomar a direção oposta à do

fugitivo.

No tempo em que se passa nossa história, o castelo de Nottingham possuía uma enorme quantidade de passagens subterrâneas escavadas na pedra da colina no alto da qual se erguiam suas torres e muralhas ameadas. Poucas pessoas, inclusive entre os mais velhos habitantes da cidadela feudal, conheciam exatamente a topografia do sombrio e misterioso labirinto. Lambic e seus homens perambularam então ao acaso e acabaram se perdendo uns dos outros, sem se darem conta.

Quase sem enxergar, como foi dito, Lambic seguiu na direção contrária, deixou os soldados se afastarem à esquerda e foi parar diante da grande escadaria do castelo, ouvindo ao alto o que lhe pareceu ser o som de passos.

 

— Bom! — pensou ele. — Os soldados já agarraram o patife, que está sendo levado ao barão. Preciso chegar ao mesmo tempo, ou esses brutos ignorantes ainda vão tirar proveito disso diante do chefe!

 

Com esse raciocínio desconfiado, o bravo sargento chegou à porta da antecâmara do barão e, prudente por experiência, antes de se mostrar quis averiguar como o mal-humorado Fitz-Alwine estava recebendo os subalternos que levavam o prisioneiro. Colou a orelha junto ao buraco da fechadura e pôde acompanhar o seguinte diálogo:

 

— Essa carta está dizendo então que Tristam de Goldsborough não pode vir a Nottingham?

— Isso mesmo, monsenhor. Obrigações o chamaram à corte.

— Que desagradável!

— E avisa que vai esperá-lo em Londres.

— Que seja! E ele marca um dia para nos encontrarmos?

— Não, monsenhor; pede apenas que o barão se ponha a caminho o quanto antes.

— Pois partirei essa manhã mesmo! Dê ordens para que preparem meus cavalos e que seis homens armados me acompanhem.

— Às suas ordens, monsenhor.

 

Muito surpreso de Robin não se encontrar ali e imaginando que talvez os soldados o tivessem então levado de volta à cela, o sargento correu para confirmar, mas encontrou a porta escancarada, o cubículo vazio e a tocha fumegante ainda no chão.

 

— Ai, ai, ai! Estou perdido — lamentou-se. — O que faço agora?

 

Voltou automaticamente à porta do barão, ousando esperar ainda que os soldados levassem para lá o maldito rapazote. Pobre Lambic! Já sentia em volta do pescoço o roçar áspero de uma corda nova. A esperança, no entanto, é a última que morre para os infelizes e ela lhe sorriu quando, novamente com a orelha colada ao buraco da fechadura, viu que tudo estava calmo e silencioso lá dentro. Foi o seguinte o seu raciocínio:

 

—   O barão está dormindo e isso significa que não está com raiva. Se não está com raiva é porque ignora que o mateiro me escapou das mãos como uma enguia. Se ignora a fuga, nada tem contra mim para me punir ou mandar enforcar. Ou seja, posso me apresentar sem medo e prestar contas da missão como se a tivesse cumprido da melhor forma. Com isso, ganho tempo para saber o que aconteceu com o miserável foragido, levá-lo de volta ao cárcere ou lá mantê-lo, se por acaso meus dois estúpidos soldados tiverem feito o necessário. Posso me apresentar sem medo… Isso mesmo, sem medo diante do terrível e todo-poderoso senhor… Vamos lá. Mas ele está dormindo, a sono solto! É o mesmo que chegar perto de um tigre faminto para um afago nas costas! Não sou louco de acordar monsenhor. Eu é que não. No entanto — continuava dizendo a si mesmo o pobre Lambic, medroso e, ao mesmo tempo, seguro, tímido e fanfarrão —, no entanto, vai que o barão não esteja dormindo? Seria realmente o melhor momento para entrar e, confirmando que desconhece o ocorrido, me sentir mais tranquilo. Mas se não estiver dormindo, tanta calma e silêncio seriam coisa extraordinária! Pensando bem, posso arranhar de leve a madeira da porta e se a reação ao barulho não for boa, terei tempo de fugir.

 

O sargento raspou então a unha bem no centro da porta, no ponto em que produziria maior sonoridade. A iniciativa permaneceu sem resposta e o silêncio no interior não foi perturbado.

 

— Não tem dúvida, ele dorme — pensou de novo Lambic, para em seguida voltar atrás: — Mas que imbecil que sou! Não é isso! Certamente saiu, deve estar com a filha, se não eu o ouviria, pois até dormindo ele esbraveja.

 

Levado por diabólica curiosidade, o sargento girou com todo cuidado a chave da porta, que se entreabriu sem ranger, o bastante para que ele esticasse o pescoço e desse uma primeira olhada no cômodo.

 

— Misericórdia!

 

Esse grito de terror escapou dos lábios de Lambic. O frio e a imobilidade da morte o dominaram e ele ficou ali, encalacrado, com o barão, também mudo e estupefato de surpresa com tamanha audácia, a fulminá-lo com o olhar.

A má sorte sempre havia perseguido o infeliz Lambic, um gênio ruim se agarrava a ele e quis a fatalidade que o coitado fosse perturbar o barão no exato momento em que o velho pecador, ajoelhado diante do seu confessor, pedia absolvição antes da viagem a Londres.

 

— Miserável! Pária! Infame sacrílego! Espião de confessionário! Enviado de Satã! Traidor vendido ao diabo! O que faz aqui? — berrou o barão, conseguindo enfim respirar e abrir as comportas da sua fúria. Quem nesse castelo é amo e quem é criado? É você o senhor? Eu o lacaio? Com a corda no pescoço, vai servir de banquete aos abutres! Não subo eu no cavalo sem que tenha você subido a escada da forca.

— Acalme-se, filho — disse o velho frade confessor. — Deus é misericordioso.

— Sacripantas desse tipo em nada servem a Deus — disse o barão, levantando-se louco de raiva. — Venha cá, patife! — acrescentou, depois de dar a volta no quarto como uma hiena na jaula. — De joelhos onde eu estava! Confesse-se antes de morrer.

 

Lambic não entrava nem saía e, apesar de ter perdido todo senso de iniciativa, esperava mesmo assim algum intervalo na fúria do amo para tentar uma explicação. O próprio barão, cujos pensamentos e palavras se atropelavam incoerentes, foi quem, sem querer, abriu uma oportunidade de defesa.

 

— O que estava querendo? — perguntou, de repente. — Fale!

— Milorde, bati várias vezes à porta — respondeu com humildade o sargento. — Achei não haver ninguém e quis…

— Quis aproveitar minha ausência para roubar.

— Que ideia, milorde…

— Quis me roubar!

— Sou soldado, milorde — respondeu Lambic ofendido.

 

A acusação reanimou sua coragem natural e ele deixou de temer prisão, bastonadas e forca.

 

— Veja só! Que nobre indignação! — ironizou o barão.

— Isso mesmo, milorde, sou soldado. Soldado a serviço de Sua Senhoria e Sua Senhoria nunca teve ladrões como soldado.

— Querendo, esta Senhoria pode, a qualquer momento, chamar de ladrão qualquer soldado seu. Esta Senhoria não tem por que se preocupar com virtudes particulares. Esta Senhoria, resumindo, tem suficiente bom senso para imaginar que a sua visita, sr. Lambic, visita com que me honra justamente no momento em que acha que estou ausente, não tinha como exclusiva finalidade confirmar a sua honestidade. Ladrão ou probo, pode então me dizer o que veio fazer aqui? Depois disso, fale sobre o encarceramento do nosso jovem lobo.

 

Lambic voltou a tremer. O pedido do barão demonstrava que ainda desconhecia a fuga de Robin. E temia nova e violenta crise, assim que fosse obrigado a explicar as queimaduras no rosto. Permaneceu então parado à frente do terrível amo, de olhos estupidamente esbugalhados, boquiaberto, braços caídos.

 

— Para começar, de onde está vindo? — exclamou de repente o barão, dando-se conta do estado do rosto de Lambic. — Com a breca! Tive razão ainda há pouco de chamá-lo foragido do inferno, pois só pode ter chamuscado desse jeito o focinho numa visita ao diabo.

— Foi com uma tocha que me queimei, milorde.

— Uma tocha?

— Desculpe-me, milorde, Sua Senhoria não sabe que essa tocha…

— Que história é essa? Resuma, de que tocha está falando?

— Da tocha de Robin.

— Outra vez Robin! — gritou o barão com voz trovejante, despendurando da parede a espada.

— Não vai ter jeito! — pensou Lambic, encolhendo-se instintivamente no vão da porta e preparando-se para fugir à primeira botinada do barão.

— Posso me considerar embalado e expedido para o outro mundo.

— Outra vez Robin! Onde está esse Robin? — gritou o barão agitando no ar a durindana.

— Onde está para que eu os espete juntos?

 

Lambic mantinha metade do corpo fora do aposento e se agarrava com força à beirada da porta para fechá-la, caso a ponta do espadagão chegasse perto demais.

 

— Meu filho — interrompeu o velho frade —, os filisteus iam ser batidos, mas fizeram suas orações a Deus e a espada voltou à bainha.

 

Fitz-Alwine jogou a arma em cima da mesa e foi na direção de Lambic, que parecia ter desistido de fugir.

 

— Perguntei — disse ele, arrastando-o pela gola do gibão até o centro do quarto — o que veio fazer aqui. Quero saber, ao mesmo tempo, que relação há entre Robin, uma tocha e a sua cara medonha. Responda com rapidez e clareza, ou teremos aqui uma espada que a clemência não fará voltar à bainha.

 

Dizendo isso, Fitz-Alwine apontou para uma comprida e pesada bengala com castão de ouro, o junco quase fenomenal que ele usava como apoio em suas incursões pelas muralhas.

 

— Milorde — começou às pressas o sargento, tendo acabado de inventar uma saída que lhe permitiria evitar uma resposta categórica —, vim precisamente perguntar o que Sua Senhoria pensa fazer desse tal Robin Hood.

— Com os diabos! Quero que permaneça no calabouço em que está preso.

— E pode me dizer, milorde, em qual calabouço, para que eu fique atento?

— E como não sabe, se você mesmo o levou há apenas uma hora?

— Ele não está mais, milorde. Eu dei ordem a meus soldados que o trouxessem até o senhor e achei que tivesse escolhido outra cela… Foi no calabouço, milorde, que ele me queimou o rosto.

— Isso passa das medidas! — berrou Fitz-Alwine dando um passo na direção do junco com castão de ouro, enquanto Lambic virava um pouco a cabeça, calculando preocupado se teria tempo para fugir antes que a tempestade desabasse.

 

As bengaladas viriam como um aguaceiro, pois, apesar da gota, o barão tinha bom braço, e Lambic então, assim pressionado, esqueceu-se da inviolabilidade senhorial, adiantou-se ao barão, arrancou-lhe o junco das mãos, segurou os seus dois antebraços e, com todo o respeito que permitiam as circunstâncias, o fez recuar atropeladamente, sentou-o na grande poltrona das crises de gota e fugiu, tão rápido quanto possível.

Igualmente rápido, o velho Fitz-Alwine, a quem a agitação do momento devolvera um pouco da agilidade, quis perseguir o audacioso vassalo, mas os  dois  soldados  que  voltavam  da  expedição  em  busca de Robin o pouparam desse esforço, pois ouvindo seus berros: “Pega! Pega!”, barraram a passagem do sargento, que ainda não saíra da antecâmara.

 

—   Para trás! — berrou o sargento, empurrando os dois subordinados. — Para trás!

 

Fitz-Alwine, porém, correu e fechou a porta de saída. Qualquer resistência seria inútil e o infeliz Lambic esperava, imerso em triste expectativa, que seu alto e poderoso senhor se pronunciasse com relação a seu destino.

Por um desses fenômenos estranhos, inexplicáveis, semelhantes talvez na ordem moral ao que são os seus análogos na ordem física da natureza, a raiva do barão pareceu se acalmar depois desse episódio de rebelião, assim como o vendaval se abranda após uma chuva miúda.

 

— Peça desculpa — disse tranquilamente Fitz-Alwine que, resfolegante, se sentou, agora por vontade própria, na grande poltrona. — Vamos, mestre Lambic, peça desculpa.

 

É provável que o barão só apresentasse tanta tranquilidade, verdadeira mansuetude, por faltarem forças para sustentar o diapasão habitual, mas isso não duraria para sempre e à medida que as hesitações temerosas de Lambic se prolongavam e à medida também que a respiração do barão voltava ao normal, as efervescências da cólera dobraram de intensidade, tornando iminente a explosão.

 

— Recusa-se então a pedir desculpa? Pois faça, nesse caso, ato de contrição — acrescentou Fitz-Alwine, num tom cruelmente sardônico —, é muito útil antes da morte.

— Milorde, deixe-me contar o que se passou, e esses dois homens poderão confirmar o ocorrido.

— Dois patifes como você!

— Não sou tão culpado quanto pensa, milorde. Eu já ia fechar a porta da cela quando Robin Hood…

 

Não vamos seguir o sargento em sua verborrágica narrativa, entrecortada por reticências, sempre favoráveis a si mesmo. Nossos leitores não descobririam novidade alguma, mas o barão ouviu, não sem diversos berros furiosos, sacudindo-se indócil na poltrona como o diabo, pelo que dizem, quando uma pia de água benta lhe serve de banheira. No final de tudo, essa frase assustadoramente lacônica resumiu suas ameaças de castigo:

 

— Robin pode ter escapado do castelo, mas vocês não! Para ele a liberdade, para vocês a morte.

 

Ouviu-se uma pancada violenta na porta do quarto.

 

— Entre! — gritou o barão. Um soldado entrou e disse:

— Que o muito honrado lorde me perdoe se me atrevo a vir diante de sua muito honrada pessoa sem ser chamado por Sua muito honrada Senhoria, mas o acontecimento que acaba de ocorrer é tão extraordinário, tão terrível que acreditei ser meu dever vir imediatamente anunciá-lo ao muito honrado senhor desse castelo.

— Fale, mas sem rodeios intermináveis.

— Sua muito honrada Senhoria será satisfeita; o que tenho a contar tem um final. É uma história tão curta quanto assustadora. Sei que o bom soldado deve fatigar seu arco, mas poupar língua, e como sou um bom…

— Vá ao que tem que contar, ao que tem que contar, imbecil! — irritou- se o barão.

 

O soldado se inclinou respeitosamente e continuou:

 

— E como sou um bom soldado, nunca esqueço esse princípio.

— Com os diabos, como fala! Se tudo que tem a dizer é a listagem dos seus méritos, cale-se. Ou então diga logo o que o trouxe aqui.

 

O soldado novamente se inclinou e retomou, imperturbável:

 

— Ditava-me o dever…

— Vai continuar!? — vociferou Fitz-Alwine.

— Ditava-me o dever que rendesse a sentinela da capela…

— Enfim! — disse o barão, que se pôs a ouvir com atenção.

— Dirigi-me então para lá há cinco ou dez minutos, se assim quiser Sua muito honrada Senhoria, e chegando à porta do santuário, não encontrei a sentinela. Que devia no entanto estar ali, uma vez que eu vinha justamente rendê-la. “Tinha obrigação de estar”, pensei. “Irei ao posto da guarda pedir reforço para prender o delinquente, que precisa sofrer punição exemplar, além da que eu próprio aplicarei.” Cheguei ao posto: “Sargento, chame a guarda!”. Ninguém saiu do posto. Entrei. Ninguém lá dentro. “Ai, ai, ai!”, pensei…

— Ao diabo os seus pensamentos! Falastrão! Vá ao que interessa! — gritou o barão no auge da impaciência.

 

O soldado novamente executou sua saudação militar e continuou:

 

— “Eh, eh!”, pensei, “os deveres militares estão sendo desrespeitados na guarnição do castelo de Nottingham. A disciplina se encontra muito relaxada, e as consequências de tal relaxamento…”

— Com mil demônios! Continua a divagar, cretino tagarela! Cão prolixo!

— Cão prolixo! — murmurou automaticamente o soldado que se interrompeu ao ouvir o epíteto. — Cão prolixo! Sou bom caçador e não conheço essa raça. Não faz mal, continuemos. As consequências desse relaxamento podem ser funestas. Não foi difícil encontrar os homens do posto na mesa da cantina e tratamos de imediatamente visitar, de forma minuciosa e inteligente, os arredores e o interior do lugar santo. Nos arredores, nada a assinalar, exceto a contínua ausência da sentinela; no interior, contudo, lá estava presente a sentinela, mas em que estado, por Deus! Estava presente como os mortos estão presentes no campo de batalha, isto é, no chão, sem vida, banhando no próprio sangue, com o crânio atravessado por uma flecha…

— Santo Deus! — assustou-se o barão. — Quem pode ter cometido o crime?

— Ignoro, não estava presente, mas…

— Quem era o morto?

— Gaspar Steinkoff… um bruto soldado.

— E não sabe quem é o assassino?

— Já tive a honra de dizer a Sua muito honrada Senhoria que não estava presente quando se deu o crime. Mas para facilitar as buscas de monsenhor, tive a presença de espírito de trazer a flecha homicida… aqui está.

— Esta flecha não saiu do meu arsenal — disse o barão, depois de examiná-la atentamente.

— Com todo o respeito que devo a Sua honrada Senhoria, gostaria de observar que a flecha, não tendo saído do arsenal de Sua honrada Senhoria, de outro lugar necessariamente saiu, e creio ter notado outras iguais a ela na aljava que carregava esta noite um dos aprendizes de escudeiro.

— Qual deles?

— Halbert. A aljava e o arco que vimos nas mãos desse rapazinho pertencem a um dos prisioneiros de Sua Senhoria, denominado Robin Hood.

— Rápido, procure Halbert e traga-o à minha presença — ordenou o barão.

— Há uma hora — continuou o mesmo soldado —, vi Hal na companhia da srta. Maude, os dois se dirigindo aos aposentos de lady Christabel.

— Acendam uma tocha e venham comigo! — disse o barão.

 

Seguido por Lambic e os demais, o barão — sem mais sentir os efeitos da gota — rapidamente se dirigiu ao quarto da filha. Chegando à porta, bateu; não obtendo resposta, abriu-a e entrou. Profunda escuridão, completo silêncio. Em vão o barão percorreu a sala e os demais quartos: por todo lugar o mesmo silêncio e a mesma escuridão.

 

— Foi embora! Ela foi embora! — exclamou o pai angustiado que, com tom dilacerante na voz, chamou: — Christabel! Christabel! — Mas não houve resposta. — Foi embora! Foi embora! — repetia o barão aflito, desabando no mesmo assento em que a surpreendera escrevendo para Allan Clare. — Foi-se com ele! Minha filha! Minha Christabel!

 

No entanto, a esperança de alcançar a fugitiva devolveu ao pobre pai alguma presença de espírito.

 

— Alerta geral! — ele gritou com voz de trovão. — Alerta! Dividam-se em dois grupos: um revira o castelo de cabo a rabo, vasculha tudo, por todo lugar… O outro parte a cavalo e que nenhum bosque, nenhuma mata, nenhuma moita da floresta de Sherwood escape às buscas… Comecem agora…

 

Os soldados já se preparavam para sair quando o barão se lembrou:

 

— Digam a Hubert Lindsay, o guardador das chaves, que venha aqui. Foi a Jezabel44 da filha dele que armou essa fuga e ele vai pagar por ela. Avisem também a vinte dos meus cavaleiros que selem seus cavalos e estejam prontos para partir à primeira ordem. Corram, corram logo, miseráveis!

 

Os soldados partiram às pressas e Lambic aproveitou o ensejo para se afastar das garras do irascível amo.

Uma vez sozinho, o barão caiu em sucessivas divagações, levado pelo frenesi da raiva e pelas tristezas do coração. Amava sinceramente sua filha e a vergonha que lhe causava aquela fuga para os braços de um homem era ainda menor que a dor causada pela ideia de não mais vê-la, não mais beijá- la e nem mesmo poder mais tiranizá-la.

Foi durante essas alternâncias entre furor e desespero que o velho Hubert Lindsay apareceu. Infelizmente para ele, sua chegada coincidiu com um final de acesso colérico.

 

— Já que não sabem cumprir sua profissão de soldado, exterminarei todos — vociferava o barão —, sem deixar na face da Terra nem sombra do fantasma de qualquer um desses hereges. Desse modo, sombra alguma poderá dizer: “Ajudei Christabel a enganar o próprio pai!” Isso mesmo, assim será, juro por todos os santos apóstolos e pelas barbas dos meus antepassados, não deixarei que nenhum escape! Ah, aí está mestre Hubert

 

Lindsay, guardião das chaves do castelo de Nottingham! Aí está!

 

— Sua Senhoria mandou me chamar — justificou-se o velho, em tom calmo.

 

O barão não respondeu e, em vez disso, pulou na sua garganta como faria uma besta feroz, arrastou-o até o meio do quarto e exclamou, sacudindo-o brutalmente:

 

— Celerado! Minha filha, onde está? Responda ou o estrangulo!

— Sua filha, milorde? Não faço ideia — ele respondeu, mais surpreso do que assustado com a ira do seu amo.

— Mentiroso!

 

Hubert se soltou das mãos do barão e respondeu calmamente:

 

— Milorde, aceite explicar o motivo de sua estranha pergunta e responderei… Mas esteja certo, milorde, que sou apenas um pobre homem honrado, franco e leal, sem ter cometido na vida qualquer erro que o envergonhe. Se me matar agora mesmo, não me importo de morrer sem confissão, pois nada tenho a me censurar. Reconheço-o meu senhor e amo, interrogue-me e responderei, não por temor, mas por dever, por respeito…

— Quem saiu do castelo nas últimas duas horas?

— Ignoro, milorde. Meu ajudante, Michaël Walden, é quem cumpre seu turno com as chaves, nas últimas horas.

— Verdade?

— Tanto quanto ser o barão meu senhor e amo.

— Quem saiu durante o seu turno?

— Halbert, o jovem escudeiro, que disse “Milady está doente e tenho ordens para ir chamar um médico”.

— Ah! É esse o complô! — exclamou o barão. — Ele mentiu: Christabel não estava doente e Hal saiu para preparar a fuga.

— Como?! Milady o deixou, monsenhor?

— Sim, a ingrata abandonou seu velho pai. E sua filha partiu com ela.

— Maude? Não pode ser, monsenhor! É impossível. Vou procurá-la, ela está no seu quarto.

 

O sargento Lambic, que se esforçava ao máximo para demonstrar eficiência, entrou precipitadamente:

 

— Milorde, seus cavaleiros estão prontos. Em vão procurei Halbert pelo castelo inteiro. Ele entrou comigo e o prisioneiro Robin, mas não saiu pelo portão principal, Michaël Walden acabou de confirmar; jura que ninguém atravessou a ponte levadiça nas últimas duas horas.

— Já não importa mais! — respondeu o barão. — Mas a morte de Gaspar não foi inútil. Lambic! — acrescentou após um instante de silêncio.

— Milorde.

— Você foi esta noite até a casa de um guarda chamado Gilbert Head, perto de Mansfieldwoohaus?

— Fui, milorde.

— Pois é onde mora o infernal Robin Hood e é certamente lá que minha filha ingrata deve encontrar o herege que… Não falemos mais disso… Lambic, monte a cavalo com seus homens, volte à casa em questão, capture os fugitivos e não volte sem ter incendiado esse covil de malfeitores.

— Agora mesmo, milorde.

 

E Lambic se foi.

De volta do quarto da filha há alguns minutos, Hubert Lindsay se mantinha de pé, afastado, triste, em silêncio, de braços cruzados e cabeça caída.

 

— Velho servidor — disse para ele Fitz-Alwine —, não quero que a ira me faça esquecer que há muitos anos vivemos lado a lado e sempre me foi fiel. Duas vezes me salvou a vida. Pois bem, velho irmão de armas, esqueça minhas cóleras, brutalidades e prováveis injustiças. Se ama sua filha como eu a minha, ajude-me com sua coragem e experiência para trazer ao redil as ovelhas desgarradas… Pois Maude partiu com Christabel.

— Infelizmente, monsenhor, o quarto dela está vazio — disse o velho com um soluço.

 

Tanta aflição devia comprovar que Hubert não tinha sido cúmplice da fuga, mas o singular fidalgo, tão desconfiado quanto irascível, partia do princípio de que um subalterno sempre procura enganar seu superior, como o homem do povo ao nobre, o padre ao prelado, o soldado ao oficial e assim em diante. Quis então testar Hubert, dizendo:

 

— Não existe, nas passagens subterrâneas do castelo, uma saída que vai para a floresta de Sherwood?

 

O barão sabia perfeitamente da existência dessa tal saída, mas ignorava a sua posição exata; Hubert e a filha certamente estavam mais bem informados. E ao perguntar ele pensava: “Se a jovem Maude guiou minha filha por debaixo da terra, vai ser paga na saída, já à luz do dia, pelo trabalho.”

Franco e leal, como já dissemos, Hubert achou que devia ajudar o amo a encontrar a jovem lady. E estava tão interessado quanto o barão em pegar as fugitivas, de forma que logo respondeu:

 

— Existe, milorde. Os subterrâneos têm uma saída para a floresta, e conheço todos os seus caminhos.

— Maude também?

— Não, milorde, pelo menos que eu tenha conhecimento.

— Ninguém mais então, além de você, conhece o segredo?

— Três outras pessoas, milorde: Michaël Walden, Gaspar Steinkoff e Halbert.

— Halbert! — reagiu o barão com novo acesso de raiva. — Halbert! Foi quem serviu de guia! Rápido, uma tocha, várias tochas, vamos vasculhar o subterrâneo!

 

Hubert foi recompensado pela franqueza. Sem desconfiar mais dele, o barão declarava amizade e fazia promessas de gratidão.

 

— Ânimo, milorde — dizia o velho, enquanto preparavam as tochas e mais homens vinham para a escolta. — Ânimo, Deus há de devolver nossas filhas!

 

O desespero dos dois idosos era de cortar o coração. Distintos por berço, pelo orgulho de estirpe e pelo tipo de vida, uniam-se para conjurar uma desgraça comum e mostravam-se iguais na dor.

Seguidos por seis homens armados, o barão e Hubert atravessaram a capela sem se deterem ao passar pelo cadáver de Gaspar, enfiando-se subterrâneo adentro. Mal deram os primeiros passos, um barulho distante de vozes chegou aos ouvidos de Fitz-Alwine.

 

— Ah! — entusiasmou-se ele. — Vamos alcançá-los! Avance, Hubert, avance!

 

Hubert seguia à frente.

O mesmo barulho de antes se repetiu.

 

— Monsenhor — disse o guardião da entrada do castelo —, o som que está ouvindo não vem da passagem que leva à floresta.

— Não tem importância, são eles! Em frente, em frente!

 

A passagem se bifurcava nesse ponto e eles seguiram para o lado de onde vinham as vozes. O barulho aumentou, ouviram-se gritos.

 

— Estão pedindo socorro! Estamos chegando, crianças, estamos chegando!

— Então se enganaram de caminho — disse Hubert.

— Ótimo — respondeu o barão, em quem os sentimentos paternais já cediam vez a uma sede de vingança das mais ardentes. — Melhor ainda!

 

Estando alguns passos à frente, Hubert parou para ouvir.

 

— Milorde, posso garantir que esses clamores não vêm de quem procuramos. Deixamos o caminho certo tomando essa direção e estamos perdendo tempo.

— Venha comigo! — exclamou o barão, lançando um olhar furioso ao guardião das chaves, de quem voltava a desconfiar que pudesse estar querendo encobrir os fugitivos. — Venha comigo e vocês esperem aqui!

— Sigo suas ordens, milorde — respondeu Hubert.

 

Os dois velhos avançaram na direção do barulho: a cada minuto os gritos se tornavam mais distintos.

 

— Por minha alma — murmurava Hubert —, o amo está enlouquecendo! Quem pode achar que pessoas fugindo façam um barulho desses? É gente que está quase aos berros e, além de tudo, vem em nossa direção.

 

Mal acabou esse raciocínio e dois soldados surgiram às vistas espantadas do barão.

 

— De onde estão vindo, seus mandriões?

— Da perseguição ao prisioneiro Robin Hood — responderam os infelizes, exaustos de cansaço e apavorados. — Mas nos perdemos, e achávamos estar perdidos para sempre quando a Providência enviou a honrada Senhoria em nosso socorro. Ouvimos de longe e nos adiantamos nessa direção.

 

Em seu desapontamento, Fitz-Alwine não sabia mais para qual santo rezar quando um dos soldados resolveu dar detalhes da fuga de Robin Hood.

 

— Basta, basta, imbecis! — exasperou-se ele. — Perdidos no subterrâneo, onde deveriam mais é morrer de fome, pelo menos ouviram barulhos suspeitos nas galerias?

— Nenhum, milorde.

— Vamos rápido, Hubert, precisamos recuperar o tempo perdido!

 

E esse tempo perdido foi o que salvou os fugitivos. Quinze minutos mais tarde a pequena tropa já saía na floresta, sem ter mais dúvida de ser o caminho tomado pelos perseguidos, pois a porta do subterrâneo, normalmente fechada, estava escancarada.

 

— O instinto não me enganou! — gabou-se o barão. — Em frente, soldados! Batam a floresta em todas as direções. Prometo cem moedas de ouro a quem trouxer ao castelo lady Christabel e os infames que a levaram.

 

Na companhia de Hubert apenas, o barão fez o trajeto de volta até os seus aposentos. Mas em vez de aceitar o descanso de que tanto carecia, vestiu a cota de malha, prendeu na cinta o espadagão e, empunhando a lança com penachos matizados nas cores da sua casa, tratou de montar a cavalo e partiu à frente de vinte homens pela estrada de Mansfieldwoohaus.

0.0/5 pontuação (0 votos)
Visualizações34


  • Na Literaz, a leitura gratuita é possível graças à exibição de anúncios.
  • Ao continuar lendo, você apoia os autores e a literatura independente.
  • Obrigado por fazer parte dessa jornada!

Deixe um comentário

Você está comentando como visitante.
  • Na Literaz, a leitura gratuita é possível graças à exibição de anúncios.
  • Ao continuar lendo, você apoia os autores e a literatura independente.
  • Obrigado por fazer parte dessa jornada!